O Mecanismo | Contos Sonhados

*Atenção, este é um conto de horror que possui trechos sensíveis que podem causar desconforto em algumas pessoas. Contém cenas de automutilação e suicídio.*




Sonhado entre 9 e 10 de Fevereiro de 2023 

Eu estava em uma casa grande no interior de São Paulo. Parecia uma casa do lago, com muito espaço aberto, grandes janelas, redes brancas penduradas, móveis e acabamentos de madeira e uma escada de concreto cinza indo até a rua.

Ela também tinha vários andares e cada um deles possuía uma enorme varanda. Não parecia a casa da minha mãe, mas entendi que naquele momento era… Aliás, ela estava ali, junto com seu marido, o meu irmão, uma prima e o meu noivo. 

E eu, aqui continuo eu mesma. 

Escuto o som de algo enferrujado se deslocando. Percebo pela movimentação da casa que está acontecendo alguma coisa. No início não sei bem o que é, mas estou envolvida, faço parte, tenho um papel importante. 

Enfim descubro…

Eu e meu irmão mais novo, vamos nos suicidar. 

Mórbido, eu sei, mas ali não parece ter ninguém assustado. Na verdade estão todos ajudando nos preparativos. O Mecanismo já está quase pronto, está rangendo.

Vejo o objeto, parecido com um carro sem capota, que está suspenso por grossos cabos de metal e uma das grandes varandas da casa. Então é dali que vem o barulho. Tem um banco dentro com três assentos. Abaixo tem água, não sei se é um rio, um tanque, uma piscina. Na verdade não sei o que há envolta da casa, então poderia ser o mar, o oceano. Acho que nunca saberei.

A ideia é entrar no veículo, colocar os cintos e descer até submergir. A nossa prima estará conosco, no terceiro banco disponível, mas apenas para garantir que o objetivo seja alcançado. Repito, estão todos engajados no projeto, é basicamente uma missão a ser cumprida e todos em casa estão participando, como uma equipe. Ninguém pára um segundo para entender o que está rolando, ninguém questiona, ninguém. 

O momento está chegando, os arranjos estão sendo finalizados, o ruído se intensifica e começa a me incomodar. Pela primeira vez, surge uma pequena gota de lucidez na minha mente. Acho que estou preocupada, mas não com “o Ato” e sim com o que vem depois. Sou claustrofóbica, então abomino a ideia de ser enterrada. Divido esse receio com minha prima, porém ela me acalma, diz que eu posso ficar tranquila, pois meu noivo cuidou de tudo. Ele sabe da minha condição, então já planejou todo o processo pós-morte. Não vou ser enterrada, não terei um funeral, serei cremada imediatamente, sem autópsia ou sem que meu nariz e boca sejam preenchidos por algodão. E assim como ela pede, eu me acalmo imediatamente. Sinto um alívio e uma enorme gratidão pelo meu noivo. Como ele é atencioso comigo. 

O ranger metálico do mecanismo segue aumentando a cada minuto. 

Esqueço completamente o horror da morte e assim, eu, meu irmão e minha prima embarcamos no veículo em direção à escuridão eterna.

Mas… Algo dá errado. O mecanismo trava poucos segundos após tocar na água. Isso é frustrante, penso comigo. Voltamos para a varanda e os ajustes começam a ser feitos na geringonça. Quem está fazendo esses reparos? Não sei. Um pequeno tinido continua a soar discretamente.

Enquanto isso, minha mãe, meu noivo e eu descemos para uma sala aberta, que fica abaixo da varanda. Lá começo a pensar novamente no sentido de tudo aquilo e a ficha começa a cair. Meu coração dispara.

Por que estou fazendo isso??? Não tem motivo, não tem sentido.

Fico zonza e por alguns segundos tudo se move e parece desconexo. “Não, eu não quero morrer”, digo desesperadamente, “Não quero fazer isso”. E minha mãe e meu noivo apenas concordam. “Tudo bem”, dizem eles passivamente e voltam a fazer seja lá o que estavam fazendo. Minha aflição então começa a aumentar cada vez mais quando percebo o que está havendo. Meu irmão vai se MATAR.

Por que??? O que está havendo???

Tento questionar os outros envolvidos, mas não prestam atenção em mim. E onde está meu irmão? Penso, aturdida.

Ele está esperando a hora de sua morte, ansioso e animado, mas não está mais com a gente. Parece que está muito longe, em outro ponto da casa, mas é como se estivesse em outra cidade, então começamos a nos comunicar por vídeo chamada. Ninguém além de mim parece entender ou se importar com o que está acontecendo. Tento miseravelmente explicar, pedir que me ajudem a convencer meu irmão que isso é loucura, mas nada funciona. Parecem robôs. O ruído agoniante volta a crescer pela casa.

Meu irmão está alegre, dá pra sentir a animação pela tela do celular, na verdade ela parece aumentar proporcionalmente ao meu desespero. Ele então, no auge de seu entusiasmo, decide fazer algo terrível, mas que sempre teve vontade. Cortar pedaços do próprio corpo para saber como são por dentro.

Fico tão agoniada que me dá enjoo. Não consigo fazer nada além de chorar e gritar para que ele pare. Por favor, não faça isso, digo, enquanto ele continua a se mutilar com uma faca, completamente alucinado, enquanto eu assisto aquilo horrorizada. As pessoas a minha volta seguem achando normal. “Ele vai morrer daqui a pouco, isso não importa mais”.

Eu sigo apavorada e paralisada.

Meu irmão segue afobado, se machucando com um sorriso maluco encharcado de sangue.

O ranger do mecanismo atinge seu estopim. Eu então acordo, coberta de suor e lágrimas. 


Freire, Lorrayne. O Mecanismo. Contos Sonhados, 2023. São Paulo.

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